A Jornada Continua…
Depois da sessão de introdução, foram mais duas sessões com bastante ação, combate e… quase nada registrado! Agora, seis anos depois, eu fico tentando decifrar minhas anotações e refazer todos os passos que os heróis deram. Mas tem alguns momentos que serão inesquecíveis…
Uma Estrada Tranquila
Os heróis seguiram o caminho indicado por Tormenta. A estrada antiga quase não era mais utilizada. mas ainda estava em boas condições, por isso cobriram grande distância em poucos dias. Keifan e Xistus preparavam o acampamento para todos, Victor e Linda se revezavam montando guarda enquanto Voros e Wallace conversavam e tentavam lembrar-se de mais detalhes das Guerras Esquecidas. Ambos tinham um bom conhecimento das lendas religiosas antigas, e conversando entre si esperavam lembrar de algo importante. Tudo isso enquanto Toravin ficava com a cabeça enfiada no seu livro de magias, estudando e praticando, como sempre fazia.
Aproveitaram o tempo para conversar mais e aprofundar os laços de amizade que unia os jovens heróis. Em uma das noites, quando todos estavam reunidos em volta da fogueira, Wallace perguntou pra Victor:
“Eu não sou especialista em lutas, mas reparei que quando enfrentamos aqueles salteadores na estrada, você preferiu usar a espada longa de sempre, ao invés dessa sua grande espada bastarda que tem até uma aura ameaçadora… Se você não gosta dela, porque a carrega consigo? Se gosta, porque não a usa?” – Perguntou o jovem sacerdote.
Victor deu um sorriso entre o sarcasmo e ironia, e respondeu ao amigo: “Essa espada está na minha família há muitas gerações… É tão valiosa quanto poderosa, e meu pai me contou que certa vez viu meu avô cortar um ogre ao meio, de armadura e tudo, quando ainda era uma criança.”- Isso despertou o interesse de todos, pois parecia ser uma espada mágica, o que explicaria a aura ameaçadora que Wallace pressentiu.
“Mais um bom motivo para não deixá-la na bainha!” – Disse alegremente Xistus, enquanto saboreava um pedaço de carne assada na fogueira. Tendo sido o único que não riu, Victor respondeu, ainda olhando para as chamas, como se visse cenas do passado nas labaredas:
“O problema é que meu pai me disse que ela tem uma maldição que nossa família tem que carregar: Cada vez que for desembainhada, alguém deve morrer, ou algo terrível acontece com aquele que deve guardá-la. No caso, eu! É por isso que não ouso me separar dela. Não quero que nada me aconteça se alguém a sacar longe de mim.” – Terminou o grande guerreiro com um leve sorriso irônico.
Todos permaneceram espantados com a revelação desse detalhe, já ouviram antes que a espada bastarda demoníaca era algo que os antepassados de Victor carregavam há gerações, mas a revelação dessa maldição surpreendeu as todos, que terminaram suas refeições em silêncio, exceto Toravin, que permaneceu boquiaberto por mais algum tempo.

Em um dos dias da jornada, quando se preparavam para acampar numa clareira, Toravin teve uma ideia: Uma das magias que estava estudando era um truque com corda, que aprendera de um mago que era famoso por apresentações a nobres e festivais pelo reino, que a fazia se esticar e ao subir até o topo ele desapareceria. Enquanto na verdade, a magia criava ao final da corda um pequeno espaço extra-dimensional indetectável por quem está no plano material, com um “alçapão mágico” na abertura que poderia ser fechado por dentro, tirando todo o acesso ao refúgio. A magia durava cerca de seis horas, e ao termino dela todos seriam retornados ao plano material, sem sustos. O espaço era grande o suficiente para abrigá-los, e perfeitamente seguro. Os Lança Prateadas gostaram bastante da ideia, e até Voros, mais resistente às soluções não-naturais, aceitou. Toravin disse que estava estudando meios de estender a duração dessa magia, e a partir de então, essa virou a forma como os heróis descansavam quando viajavam pela estrada.
Na manhã seguinte, pouco antes do término da magia, Keifan havia descido como sempre fazia para ter um pouco de privacidade, próximo ao local onde acampavam. Quando retornava para esperar seus amigos voltarem, reparou que havia um grupo de pegadas em volta da fogueira, agora apagada, que não era de seus amigos. Depois de uma rápida investigação, identificou que era um grupo de seis ou mais homens em armaduras pesadas.
“Devem ser os Angorin da guerra!” – pensou Keifan. Provavelmente estavam seguindo os heróis e como o rastro dos Lanças Prateadas desapareceu no próprio ar, devem ter ficado confusos, retornaram aos seus cavalos parados a uma centena de metros do acampamento, e se dispersaram. Depois disso, se espalharam procurando uma maneira de reencontrar a trilha. Sem saber, Toravin os livrou de perseguidores que os espreitavam, com um pouco de sorte ganharam alguns dias de vantagem antes de que os guerreiros voltassem ao seu encalço.
O Templo Nem Tão Abandonado…
Logo chegaram ao seu destino, algumas milhas para dentro do Vale Ruak, a noroeste de Polandis, cercado pelas montanhas que fazem as bordas do reino, outrora uma região habitada e rica em produtos para as cidades em volta. Mas desde as Guerras Esquecidas, poucas pessoas restaram no entorno, e as criaturas selvagens e bandidos há séculos fizeram todos migrarem para Polandis, ou cidades em outros reinos. Hoje, o vale era praticamente um santuário livre de civilização. Mas no coração do vale, encontram ruínas de uma construção de pedra, provavelmente algum lugar de oração, construído há milênios pelos antigos habitantes da região.

Entraram no que parecia ter sido um pequeno templo, mas o tempo apagou todos os traços que pudessem identificar a divindade. Wallace presumiu que seria um templo para Sif por ela estar associada à terra e aqueles que trabalham nela, mas era só um palpite.
Uma vez dentro do pequeno templo, foram surpreendidos por um grande Umber-Hulk. A fera havia tomado o pequeno recinto como lar, e imediatamente atacou os heróis, ao ter seu território invadido. Apesar de grande e forte, o monstro não fez frente aos Lanças Prateadas, já agindo em conjunto e com grande eficiência, e em poucos momentos, foi abatido sem ferir os aventureiros. A maior consequência do combate foi abrir uma fenda em uma das paredes dos fundos do templo, que deveria ser uma passagem secreta para níveis subterrâneos. Xistus foi quem notou a passagem, e após Victor exercer sua grande força, os heróis seguiram na jornada para o interior do templo nem tão abandonado quanto achavam.
Talvez tenha sido pelo passar dos anos, ou por algum tremor de terra que tenha ocorrido, mas o fato é que grandes fossos jaziam abertos ao longo do caminho, que não era maior do que algumas centenas de passos, e pouco antes do final da passagem, onde havia uma grande porta de pedra fechada, as laterais das paredes cederam, formando uma grande câmara improvisada, maior do que uma casa e com vários tuneis naturais e fissuras se encontrando lá. No final, o cenário era intrigante, e até Voros achou peculiar a maneira como aquela passagem se integrou com o solo. Tudo isso aliado a um frio fora do comum, com bastante gelo cobrindo quase toda a superfície dos túneis, naturais ou não.

Quando se aproximaram da porta de pedra, que tinha pouco mais do que 8 pés de altura, Keifan gritou um alerta a todos: aquela rede de túneis improvisada tinha um novo morador, e ele não estava contente com as visitas. Mas dessa vez, o inimigo era muito mais perigoso do que um Umber Hulk: Um Remorhaz adulto surgiu de uma das cavernas, onde provavelmente aguardava o inverno, e imediatamente começou a enfrentar os heróis!
Logo de imediato, Toravin, Linda e Xistus ficaram fora de combate, e Voros, Wallace e Keifan foram encurralados pela grande besta! O cenário era bastante preocupante, E ficou ainda mais quando Victor atacou a fera com sua espada longa, que prontamente derreteu na couraça quente do monstro. Foi então que o guerreiro tomou uma decisão que marcaria para sempre os Lanças Prateadas:
Ele sacou a sua espada amaldiçoada e gritou: “O golpe derradeiro tem que ser meu!”
Nas mãos de Victor, a espada de lâmina sombria era simplesmente devastadora, e os heróis conseguiram equilibrar o combate com a criatura, ainda que a muito custo de suor e sangue. Voros mal se aguentava de pé, Victor estava bastante ferido, e parou para recuperar o fôlego antes de dar o golpe derradeiro na besta. Foi quando Keifan, ansioso para salvar seus amigos e vencer o Remorhaz, disparou uma única flecha, que acertou o monstruoso artrópode em cheio em um dos olhos, e antes de seu corpo atingir o chão, já estava morto!
…Para desespero de Victor…
A Barganha Fatal
Os heróis nem tiveram tempo de comemorar, quando a fera morreu, um grito sobrenatural pode ser ouvido em toda a câmara, quando a espada de Victor brilhou com fulgor vermelho-sangue e dominou o jovem guerreiro. Gargalhando, com a face desfigurada e feições demoníacas, uma voz gutural agradecia pela oportunidade de provar o sangue dos heróis que estavam completamente esgotados das duas lutas que tiveram naquele dia. Voros ainda tentou argumentar com a entidade, para quase ser decapitado com um poderoso soco, que o deixou atordoado no chão…
Imediatamente, Wallace percebeu que não teriam chances contra quem estava possuindo Victor. Se em condições normais, já seria um desafio formidável, com Linda e Toravin desacordados, Voros atordoado e Keifan e Voros exaustos e feridos, os Lanças Prateadas pereceriam, e aquela entidade estaria livre para propagar o seu mal por toda a terra. Tomou a decisão fatídica, e rapidamente pegou o anel dos desejos que guardava consigo: “Tenho que fazer o desejo de forma que não possa ser usado para nos prejudicar!”

“Eu desejo que o problema da espada seja resolvido, mas que nenhum de nós dos Lanças Prateadas sofra pra isso!”
Imediatamente uma lufada de ar quente percorreu a grande câmara, e um dos pequenos diamantes do anel se quebrou. De dentro dele, saiu uma figura espectral que lembrava um gênio, envolto em energias místicas. Wallace não tinha certeza, mas parecia que estava sorrindo, o que lhe deu calafrios…
Enquanto as mãos da imagem do gênio gesticulava, liberando energias para seus encantamentos, os heróis claramente ouviram ressonar no ambiente com um tom bastante debochado: “Assim será feito… ‘Mestre'”!
… Foi quando todos, com exceção de Victor, ainda dominado, foram envoltos em bolhas mágicas transparentes finas como bolhas de sabão, mas em que os golpes frenéticos da entidade que dominava o guerreiro nada faziam.
Após um forte clarão vindo do centro da câmara, enquanto ouvia uma gargalhada maligna sumir nos ecos dos corredores, quando os olhos dos heróis se acostumaram novamente com a escuridão, todos ficaram horrorizados: Em frente ao guerreiro possuído havia um bebê recém-nascido! Todos gritaram desesperados, Voros implorava que o pegassem no lugar da criança, enquanto todos tentavam em vão sair de suas bolhas. Foi quando Victor dominado levantou a espada, e com um único golpe pôs fim à vida do bebê inocente!
Imediatamente, o guerreiro caiu desmaiado, e todos os Lanças Prateadas ficaram livres de novo. Mas o custo foi alto demais… Todos estavam chocados, e lágrimas escorriam no rosto dos heróis, com Wallace sendo aquele que mais se culpava. Soluçando e a todo momento pedindo perdão ao seu deus por essa morte, preparou o cadáver do bebê, determinado a fazer de tudo para reverter essa tragédia, jurando enquanto não conseguisse, levaria a pequenina criança mumificada com ele, e que nunca mais usaria aquele anel maldito!
O Despertar de Ingra
Ainda bastante abalados, Xistus destravou a grande porta de pedra, travada por mecanismos muito antigos enquanto Victor a abriu com facilidade. O jovem guerreiro estava calado, ainda se recuperando do domínio que sofrera, quando assistiu sem poder fazer nada, seu próprio corpo controlado pela entidade da espada tirar a vida do bebê inocente que o gênio largou ali. As sequelas o seguiriam para sempre. Inclusive fisicamente, já que notou algumas mudanças. Seus olhos, antes castanhos, agora estavam vermelho sangue, possuía agora as orelhas pontiagudas, mas não como dos elfos ou meio-elfos, e sim algo que parecia com as orelhas dos demônios retratados em obras de arte. Estranhamente, seus caninos também ficaram mais proeminentes. O outrora guerreiro de feições nobres agora lembrava alguém comprometido com causas demoníacas.
Passaram pela porta e adentraram nesta segunda câmara, onde haviam alguns objetos simples como vasos espalhados e algumas tapeçarias esmaecidas nas paredes, bastante afetadas pela passagem de tempo, embora não vissem qualquer indício de poeira, sujeita ou teias de aranha. Parecia uma grande sala quase vazia e abandonada, com exceção de um imenso bloco de gelo no centro, onde dentro dele podia ser vista uma cama de pedra, onde deitava serenamente uma bela mulher de cabelos curtos e dourados em veste de guerreira, com um escudo e uma espada ao lado dela. Havia um minúsculo canal, que partia do pescoço dela, onde saia sangue em uma quantidade tão pequena, que na saída do bloco, pingava gotas em uma ânfora, que se encontrava vazia naquele momento. Alguém estava se aproveitando do sangue daquela Angal, confirmando as suspeitas dos heróis: Vampiros existiam, e estavam agindo novamente.
Depois de examinarem a câmara e virem que não havia maiores perigos, Keifan disse que ninguém passara naquele lugar há algum tempo, e Toravin viu que havia alguma magia naquele gelo, e que deveriam libertar Inga. Juntos, os Lanças Prateadas desfizeram o bloco de gelo, deixando a bela mulher livre de seu clausuro.
“Ingra!” – Wallace chamou em voz alta pelo nome da Angal, que despertou imediatamente, como se estivesse em um sono leve. Ela olhou em volta e viu o estado envelhecido das coisas ao seu redor. Encarou os heróis na porta e disse:
– “Sinto que dormi muito, quantos anos se passaram?”
– “Não muito… Coisa de três milênios… ” Disse espontaneamente Keifan, para desconcerto do grupo, com o tom informal demais perante alguém celestial.
Se Ingra se surpreendeu, não demonstrou, e após uma rápida conversa com Linda e Wallace, na qual, para tristeza dos heróis, explicou que trazer a criança de volta estava além das suas habilidades, levantou-se e pegou seus objetos pessoais. Em seguida fechou os olhos por um momento e usou de suas habilidades para ocultá-los de seus adversários na jornada de volta. Os jovens heróis mereciam algum descanso depois de tanto sofrimento.
Nada os importunaria até retornarem ao amado Tormenta.
…Nada além da culpa.
A Benção do Sol
A viagem de volta realmente foi rápida e sem eventos, e tão logo se aproximaram do local de partida onde Tormenta se encontrava (parecia que não havia se mexido desde que se encontraram pela última vez, algumas semanas anteriormente), os dois Angorin correram em direção um ao outro. Pareciam dois jovens namorados que se reencontravam depois de uma viagem necessária. Se beijaram apaixonadamente e entre um sorriso da Linda e um olhar marejado de Wallace, os Lanças Prateadas deram alguns momentos preciosos de de reencontro para os amantes.
– “Amigos! Não tenho palavras para descrever o quanto estou agradecido a vocês! Desde o início da Guerra com a Necrópole eu não vejo a minha amada! Finalmente me sinto completo!”
-“Fizemos o que sentimos que era o certo, amigo.” – Disse Voros, e continuou: – “Mas acreditamos que foi mais do que coincidência encontrá-lo, pois estávamos rumando para o norte, em busca das ruínas da Necrópole, para saber se ela estaria retornando. A providência o colocou em nosso destino, pois acho que pode nos indicar o caminho.”
– “Farei mais do que isso!” – Respondeu ainda com lágrimas de alegria nos olhos – “Tome! Esse artefato sagrado me foi dado pelo próprio Angor de Kallas!”
E tirou de seu embornal uma bela orbe dourada, com runas celestes gravadas em sua superfície. Wallace e Linda arregalaram os olhos, pois embora soubessem da existência de itens sagrados por toda Alderon, nunca tinham ouvido falar de algo concedido diretamente pelos alto-seguidores dos deuses.

“Esta é a Orbe do Sol, uma benção concedida pelo próprio Kallas a seus seguidores durante as Guerras Esquecidas. Dentro dela, uma fagulha do próprio sol descansa, e ao invocar seu poder a luz do dia em sua forma mais pura preenche o ambiente. Nenhum morto vivo pode resistir ao seu poder! Tive a honra de empunhar esta na última batalha, quando caçávamos as forças remanescentes da Necrópole. Quando fui devolvê-la, me disseram que guardasse, pois ela estava destinada a ser usada de novo, desta vez pelos seus campeões mortais!” – Esta última parte, ele disse olhando para Wallace e Linda.
Extremamente emocionados, os heróis relutaram muito em aceitar tão importante prêmio, com Linda chegando a considerar entregar o artefato para Targos, ou Tordek. Foi com alguma insistência de Ingra, que Wallace aceitou carregar a Orbe, até que ela fosse necessária. Afinal, iriam enfrentar vampiros, e nada era maior do que o poder do próprio sol para protegê-los. Por fim, aceitaram o presente e sua responsabilidade e preparam-se para partir.
Tormenta, além de preparar um mapa dizendo por onde deveriam viajar para chegar mais rapidamente e de forma segura à região da Necrópole, também lhes deu alguns avisos: Os Angorin da Guerra estavam ainda em seu encalço, porém o truque de Toravin havia deixado-os tão desnorteados que eles ainda estavam espalhados por toda costa, a oeste de onde estavam. Talvez ainda levassem meses para encontrá-los, mas como não poderiam fazer nada contra os mortais sem que fossem atacados, tudo o que os heróis tinham que fazer era não se intimidarem ou aceitarem provocações caso encontrasse com eles.
Contudo, seus oponentes eram astutos e Tormenta soube que um guerreiro mortal fora contratado pouco depois de seu encontro. Viu que seguiu para o Norte, então estaria à frente dos heróis. Pediu para que tomassem cuidado e ficassem sempre atentos, pois sentia que um destino grandioso aguardava os jovens heróis, mas grandes perigos também.
E com o espírito renovado, os Lanças Prateadas seguiram para o norte, determinados a descobrir se o perigo de Necrópole estava de volta.
… mas Wallace estava com uma segunda missão em mente: Descobrir como trazer o bebê de volta à vida.
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